Meros Devaneios...

OLIVEIRA, Giselli.

Desde o último Dezembro eu fiz um novo amigo. Eu o chamo de O Fantasma Do Natal Passado, mas ele também atende por Sua Ausência, O Buraco Que Você Deixou ou simplesmente Dor. Ele tem ocupado cada espaço vazio desde que você foi embora. Confesso que no começo a convivência foi difícil. Não nos entendíamos muito bem. Ele é extremamente realista e você sabe como isso às vezes dói, né? Todas as vezes em que eu delirava que você poderia voltar, ele me batia forte bem no meio da cara. A dor percorria o corpo inteiro e ele não sentia remorso algum por isso. Pensando agora, vocês tem muito em comum.

Mas sabe, nos últimos tempos estamos nos dando melhor. Você ficaria orgulhoso. Esses dias conseguimos dividir o mesmo sofá e eu já nem reclamo mais de dormir com ele todas as noites. Ontem mesmo fizemos pipoca e a minha única preocupação era em não molhar a tigela. No começo, quando dormíamos juntos, ele ocupava toda a cama. Morria de raiva disso. Depois ele começou a ocupar o quarto inteiro, e a casa, e antes que ocupasse a cidade também, eu fui embora. Eu disse para ele ficar, você sabe que eu disse, mas ele veio junto e disse que nunca me abandonaria. Eu queria que ele me abandonasse.

Ele é um tanto quanto grudento e você sabe muito bem o quanto isso me irrita. Para onde eu vou, lá está ele grudado nas minhas costas. Eu o tenho alimentado bastante e o peso está ficando cada dia mais insuportável de carregar. Admito que algumas pessoas tentaram me ajudar a tirar ele de cima de mim, mas por algum motivo, eu ladrava feito um cão raivoso e não deixava que ninguém se aproximasse muito. Você já está mentalmente me chamando de idiota, né? Eu sei que está, você sempre faz isso, mas sabe, é que talvez eu ainda não estivesse pronta para deixá-lo partir. Eu queria. Sempre quis, mas sabia que se ele fosse, você também iria e aí um dia eu iria acordar e não lembrar mais como é o som da sua voz arrastada, ou em qual lado da testa fica a sua cicatriz, e nem mais o seu cheiro e muito menos o seu abraço. E por mais que eu tentasse com todas as forças segurar só uma memória, só uma lembrança, mesmo que pequena, eu nunca teria esse poder. Se eu for devolver o Sr. Fantasma Do Natal Passado, ele irá embora com o pacote inteiro.

Ontem tivemos uma conversa séria. Já se passou bastante tempo e Agosto já está batendo na porta. Ele não pode mais se hospedar aqui em mim. Estou precisando abrir espaço. Foi difícil dizer isso. Eu o vi botando todos os seus beijos, os seus sorrisos de canto de boca e as suas cores dentro da mala e eu não fiz nada para impedi-lo. Apenas disse frases prontas como “não é você, sou eu”, “não posso te dar o que você quer”, e esse tipo de coisa. Você sabe, né? Eu sei muito bem que sabe.

Não posso dizer que foi bom o tempo que passamos juntos, mas ele me ensinou muito. Em cada palavra e ação daqui pra frente, terá um pouco dele. Ele é o tipo de amigo que não se esquece. Não sei se felizmente ou infelizmente, mas já não me perco mais pensando nisso.

Então estou te escrevendo para dizer que não existe mais areia para cair na minha ampulheta da esperança e eu sei, você sabe – nós sabemos – que no próximo Dezembro, O Fantasma do Natal Passado não poderá mais se sentar à mesa. E eu o estou te devolvendo junto com tudo mais que tiver que ir embora. Eu o estou te devolvendo com o que ficou de você quando você não ficou mais. Façam boa viagem.

embevece-los:

Tem um mundo ao redor que a gente nem percebe Tô ficando magro e pequeno nas minhas roupas Sinto que estou reunindo minhas coisinhas Me concentrando Se pudesse, guardava tudo numa garrafa, e bebia de uma vez Penso no que vai ficar de mim Eu… só sei insistir.
Cazuza

embevece-los:

Tem um mundo ao redor que a gente nem percebe
Tô ficando magro e pequeno nas minhas roupas
Sinto que estou reunindo minhas coisinhas
Me concentrando
Se pudesse, guardava tudo numa garrafa, e bebia de uma vez
Penso no que vai ficar de mim
Eu… só sei insistir.

Cazuza